sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Neutral Milk Hotel - In The Aeroplane Over The Sea (1998)

 

Quando fui a Amesterdão, passei pela casa, hoje museu, onde Anne Frank viveu uma das histórias mais populares do Holocausto. "Popular", culpa de um "Diário" onde redigiu os seus pensamentos adolescentes enquanto se escondia da Gestapo, e que é hoje em dia lido por milhões atrás de milhões de pessoas, quer em contexto escolar, quer por curiosidade pessoal. Eu me confesso: nunca li o "Diário" e, quando passei pela casa, com um monte de gente na fila para entrar (não o fiz porque os bilhetes só podiam ser comprados online e eu não estive para me chatear), o meu primeiro pensamento não foi Anne Frank, e sim 'Holland, 1945', uma das canções que Jeff Mangum lhe dedicou, tão comovido ficou com a história da jovem judia. 

Isto faz de mim uma pessoa horrível, como é óbvio: quem é que, no seu perfeito juízo, é confrontado com um dos maiores horrores que a humanidade já produziu e só consegue levar a mente para o campo da música pop?

Não sou, no entanto, a única pessoa horrível neste mundo. E neste contexto. É difícil imaginar que a casa de Anne Frank não seja, também, motivo de peregrinação para os fãs de "In The Aeroplane Over The Sea", tamanho é o impacto desse disco numa franja da população que prefere que a sua música seja menos sobre abanar o cu (e não há absolutamente nenhum mal em abanar o cu, atenção) e mais sobre letras a roçar o surreal e a infância, menos sobre ser uma estrela teatral e mais sobre autenticidade (seja lá isso o que for), menos sobre glitter e mais sobre camisas de flanela e punk rock, menos sobre quem aspira a tomar de assalto uma cidade e mais sobre gente rude do campo que até leu os mesmos livros que o pessoal leu ou lerá na universidade. Um impacto que passou de geração em geração ou, melhor dizendo, um impacto que só existiu na geração seguinte àquela que viu o disco ser lançado. A culpa é da qualidade memética da capa (uma mulher com cabeça de tambor? uma senhora cabeça-de-batata saída de um "Toy Story" hipster?), ou do enorme gozo que dá gritar I LOVE YOU, JESUS CHRIST, mesmo que na maior parte das vezes nos estejamos nas tintas para Cristo. 

(A culpa também é do 4chan, provavelmente uma das poucas boas culpas que o 4chan tem no cartório.)

Não que o disco tenha sido imediatamente esquecido, quando foi originalmente lançado, em 1998. Até porque os próprios Neutral Milk Hotel, que para todos os efeitos são um veículo exclusivo de Mangum, com a ajuda dos seus amigos da Elephant 6, já tinham lançado um álbum que havia caído no goto de boa gente, dois anos antes: "On Avery Island". A Merge esperava vender o mesmo número de cópias de "In The Aeroplane Over The Sea" que esse disco de estreia, disponibilizando 5500 cópias em CD e 1600 em vinil. O que a Merge não esperava é que este fosse um daqueles álbuns em que o passa-palavra se tornaria quase tão importante quanto o álbum em si: quem viu os Neutral Milk Hotel ao vivo, por esta altura, apressava-se a contar o que viu aos amigos mais cultos, e quando esses amigos o viam apressavam-se a contar a outros amigos, e por aí fora.

«É extremamente difícil escrever sobre um álbum como 'In The Aeroplane Over The Sea'», aponta Adam Clair em "Endless Endless", livro indispensável para todos aqueles que queiram entender melhor como funcionava a Elephant 6, colectivo que - não só com os Neutral Milk Hotel mas também com os Apples In Stereo ou os Olivia Tremor Control - alterou o panorama indie norte-americano de finais dos anos 90. E é difícil escrever sobre ele precisamente porque olhamos para a premissa inicial (o fascínio de Jeff Mangum com a pessoa e a vida de Anne Frank) e imediatamente pensamos: mas este gajo bate bem? Construir uma máquina do tempo para salvar a vida de Anne Frank? Semen stains the mountaintops? E essa cena de Jesus Cristo é mesmo crença?

(No mesmo livro, Clair aponta que essa verso em particular pode ser menos sobre o filho de Deus e mais sobre aquela interjeição particular que todos nós, até ateus, já dissemos em algum ponto das nossas vidas, fruto de uma educação e de vivermos numa sociedade minimamente católica. O que lhe retira alguma piada, mas que é ainda assim interessante).

Criado no seio de uma família religiosa mas não fanática, Mangum descreveu a sua infância como uma mistura entre «marijuana, Jesus Cristo e os Minutemen», o que valha a verdade é uma descrição perfeita de "In The Aeroplane Over The Sea". A sua qualidade drogada e psicadélica de baixa fidelidade, aliada à energia do punk, complementa letras carregadas de uma poética espiritual mas, sobretudo, inocente - nesse sentido infantilizado da inocência. Há poucas coisas que aqueçam mais o coração que isto, cantado de sorriso nos lábios:

And one day we will die
And our ashes will fly
From the aeroplane over the sea

Mangum andou a ler o "Diário" pouco antes de começar a compor essas canções, e a coisa abalou-o tanto que sentiu a necessidade de o botar cá para fora, em jorro. Segundo Robert Schneider, que lidera os Apples In Stereo e tocou em discos dos Neutral Milk Hotel, Mangum nem sequer era um grande leitor. «Esse é um dos poucos livros que ele leu, nessa altura», conta em "In The Aeroplane Over The Sea", o livro sobre o disco, da colecção 33 1/3. À "Puncture", Mangum explicou que as canções surgiram «de forma espontânea». «Levo algum tempo para perceber o que está a acontecer, liricamente falando; que tipo de história estou a contar [...] Quando estava a ler o livro, [Anne Frank] estava completamente viva para mim. Sabia o que iria acontecer. Mas é essa a cena: amas as pessoas porque conheces a história delas».

Estava errado. O público que ama Jeff Mangum ama-o mesmo não sabendo grande coisa acerca da sua história, ou precisamente por não o saber - se há algo de que o público gosta à séria é de um bom mistério ou de uma personagem que se apresenta ao mundo como não estando nem dentro nem fora da caixa, quer essa personagem tenha o nome Syd Barrett, Brian Wilson ou Burial. Quando alguém cria a sua arte sem se importar, nós tendemos a prestar atenção. «["In The Aeroplane Over The Sea"] foi criado para ser um álbum clássico, diz Schneider em "Endless Endless". "Putos no seu auge, sem dinheiro, a abrir os seus corações, sem interesses financeiros numa obra de arte pura é o cenário ideal. Sempre que alguém o faz, torna-se um clássico».

Tão clássico que Jeff Mangum, como Cobain anos antes, sentiu a necessidade de o rejeitar. No final de 1998, os Neutral Milk Hotel eram a banda indie por excelência; poucos meses depois, estavam desaparecidos em combate. «É possível que [Mangum] tenha sido vítima do seu próprio sucesso», afirma Clair. «As expetativas para o seu trabalho cresceram, e ele desenvolveu uma reputação de génio incompreensível. Quebrar essa mística poderia destruir algo que bateu em tantas e tantas pessoas». O que significou que a geração seguinte, que descobriu "In The Aeroplane Over The Sea" praticamente dez anos depois de ter sido lançado, só teve a oportunidade de constatar se o mito era real quando Mangum, primeiro, e com os Neutral Milk Hotel, depois, tocaram num par de Primaveras.

Confere: é extremamente difícil escrever sobre este álbum sem mencionar as partes óbvias, que é tudo aquilo que tentei colocar em cima. Não começou revoluções, começou religiões: venera-se "In The Aeroplane Over The Sea" pela música e pelas letras e pelas personagens Mangum/Anne e essa é uma veneração só nossa, um amor só nosso, que partilhamos com quem venha de boa vontade. Quem não o faz, tem que ser imediatamente rotulado como pagão, que é o que o Colbert devia ter feito aqui. Voltei a ouvi-o hoje e a minha nova parte favorita - que muda consoante as audições - é mesmo o final de 'Two-Headed Boy Pt. Two', com o som de Mangum a erguer-se e a sair do estúdio, como se tudo o que acontecera antes não fosse mais que uma sessão meio xamânica, uma espécie de festa comunitária em honra de uma figura mitológica que, só por acaso, morreu durante a II Grande Guerra. Daqui a outros 25 anos, continuaremos a lembrarmo-nos dele não pelas mudanças que provocou na sociedade, mas pelas mudanças que provocou em nós próprios - e se este linguajar soa meio hippie, que se foda, porque o disco também é meio hippie.

I
love
you
Jesus
Christ

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Air - Moon Safari (1998)

 

Os franceses tornam muito difícil gostarmos deles. Por um lado tiveram a Comuna de Paris, por outro têm a Frente Nacional; por um lado tiveram Zidane, por outro têm Benzema; por um lado têm a Costa Azul, por outro decidem vir para Portugal menosprezar quem não fala a porra da língua deles. Sim, isto é pessoal. Uma vez fui abordado no Chiado por uma francesa velha que queria indicações. Quando lhe respondi que falava mal francês e preferia o inglês, respondeu MAIS JE NE PARLE PAS ANGLAIS com a maior sobranceira do mundo, virou costas e foi embora. Espero que tenha acabado no fundo de uma qualquer falésia.

O ponto é este: todas as coisas incríveis que a cultura francesa nos dá levam imediatamente com um asterisco por causa do seu chauvinismo e altivez, e se acham que estou a generalizar todo um povo por causa da atitude de uns quantos, caguei, são franceses. Gainsbourg leva um asterisco porque, apesar de ser um génio, era também um idiota misógino (a Whitney Houston e a Catherine Ringer que o digam). Françoise Hardy leva um asterisco, porque cantou 'Le Premier Bonheur Du Jour' e 'Mon Amie La Rose' e 'Tous Les Garçons Et Les Filles' e 'Comment Te Dire Adieu', mas é uma beta liberal a roçar o facho. Os Daft Punk levam um asterisco, porque "Discovery" é um dos melhores álbuns da história pop, mas depois fizeram a 'Get Lucky'. Safa-se quem? Bem, safam-se os Air, que sempre pareceram uma dupla minimamente chill, meio que à semelhança da música que fazem.

Editado em 1998, "Moon Safari" ainda se apresenta, 25 anos depois, como a sua maior obra-prima. Emos dirão que isso não é verdade, que o "The Virgin Suicides" é melhor. Outros mencionarão o "Talkie Walkie" e a 'Alpha Beta Gaga' ou a 'Alone In Kyoto' porque viram o "Lost In Translation" e acharam esse filme mais que uma merda do caralho (estou disposto a lutar num ringue por isto: o 'Lost In Translation' é horrível e vocês só gostam por causa da banda-sonora). Ninguém falará do "Love 2" (que, diga-se, é bastante decente). A velha guarda vai rir-se ao lembrar-se que num blogue antigo "10 000 Hz Legend" foi descrito com um simples e lendário pá, é naquela. Pelo menos acho que foi esse. Se estiver enganado avisem.

Onde ia? Sim, "Moon Safari" é a obra-prima dos Air porque é o disco onde os franceses nos conseguem pôr a sonhar em tons retro, se quisermos ser minimamente poéticos. Há toda uma geração que viu o homem a pisar na Lua em directo e por conseguinte deixou de ter no espaço sideral uma novidade, mas desse momento impagável os seus filhos só tem o áudio, os vídeos e as fotografias. É como se nunca tivesse existido, porque a experiência só nos é contada em história, e a história é manipulada por E L E S

(melhor parar por aqui antes que achem que sou um chalupa das conspirações)

«Queríamos que "Moon Safari" fosse uma aventura, que levasse o 'som francês' a um lado diferente», explica Jean-Benoît Dunckel a Martin James em "French Connections", livro sobre a história e o impacto da música fait en France nos anos 90. Essa é a década em que os franceses têm de confrontar o seu racismo e as discrepâncias sociais via "La Haine", mas também é a década onde brancos de classe média-alta transformam o house e a disco em algo (ainda) mais refrescante. Ao contrário dos conterrâneos Daft Punk, os Air não se viraram para esses dois géneros, e sim para Gainsbourg, para os Pink Floyd, para Jean-Jacques Perrey, para Joe Meek: para uma velha ideia de futurismo. «A lua é o símbolo perfeito para a nossa música. Representa algo que tem lá estado sempre, e no futuro toda a gente quererá ir à lua». Em 1998 como em 1969, em 1969 como em 2023.

E, no entanto, os Air recusam a assumir esse lado retro, tal como muitos outros artistas recusam assumir os seus. «Há quem nos chame retro, há quem nos chame kitsch, acho apenas que não entendem», continua Dunckel. Entendendo ou não, "Moon Safari" foi um sucesso, ainda para mais quando o colaram, no que ao género diz respeito, a outras obras da eletrónica menos dançável e mais emotiva, como "Portishead" ou "Mezzanine". O trip-hop - que é em Portugal o que David Hasselhoff é na Alemanha - a tomar conta do planeta. "Moon Safari" vendeu mais de dois milhões de cópias por todo o mundo, serviu para ajudar a combater ressacas de noitadas anteriores, e deixou toda a gente em agências de publicidade a esfregar as mãos de contentes quando percebeu que 'Sexy Boy', 'All I Need' ou 'Kelly Watch The Stars' - uma das melhores sequências de sempre - ficavam mesmo, mesmo bem em anúncios de carros ou perfumes.

O que poucos sabem é que "Moon Safari" é uma obra-prima não porque soa bem - e soa - ou porque tem escelentes canções - e tem - mas sim porque é o álbum mais rock n' roll dos Air, na medida em que o rock n' roll é um espírito: «Nós gostamos de nos embebedar, gostamos de sexo, como todas as pessoas», diz Nicolas Godin em "French Connections". «O "Moon Safari" é um disco para pinar. A 'Sexy Boy' é uma canção muito porca. Gostamos de pensar que a nossa música é uma banda-sonora para o sexo», tal como muitos outros pensaram nas suas guitarras para o sexo, tal como todos os franceses pensam no sexo (isto é uma graçola mas é tão verdade, caraças). 

Tal como afirma Martin James, a diferença entre os Air e os Daft Punk é que os primeiros têm orgulho em serem franceses, mesmo que esse orgulho - e isto vai contra o que foi escrito mais acima - não parta de um nacionalismo e uma arrogância bacocas, e sim de um gosto genuíno pelas partes boas da cultura que os rodeia. Mesmo ali na capa, lê-se: french band, logo ao lado de Air. Mais ninguém faria isto, nem mesmo as velhinhas que não falam inglês. E, o que é mais curioso: os próprios franceses não os veem como franceses. «Cantávamos em inglês, por isso pensavam em nós como uma coisa mais britânica», contou Dunckel à "Loud And Quiet" em 2016. A identidade dos Air pode, assim, resumir-se a um pastiche daquilo que os estrangeiros pensam sobre França, e poderá muito bem ser essa a chave do seu sucesso: se todos os franceses fossem assim tão auto-depreciativos e capazes de troçar de si próprios, seríamos muito mais capazes de os adorar. Até, quem sabe, estaríamos dispostos a (re)aprender o francês só para comunicar com eles. Se calhar está na hora de reactivar o Duolingo, apenas e só por respeito a este álbum. Vive la Lune.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Albrecht/d. - Endless Music (1974)

 


Dietrich Albrecht poderia ter sido só mais um bancário chato se não tivesse abandonado esse primeiro emprego, dedicando-se às artes. No plural, já que a sua obra e os seus interesses abarcam vários campos artísticos. Criou contactos com os artistas do Fluxus, esteve envolvido em mail art, mudou de nome para Albrecht/d. numa espécie de homenagem a Albrecht Dürer e, aquilo que - pessoalmente falando - mais importa, lançou uns quantos discos, colaborando com gente como Joseph Beuys (perguntem aos vossos amigos de belas-artes) e os Throbbing Gristle (perguntem aos vossos amigos drogados).

"Endless Music" talvez seja o mais conhecido desses trabalhos musicais, ainda que "conhecido" seja uma palavra muito forte para algo tão de nicho, e que ao longo da sua carreira conheceu várias encarnações e edições. Mas que não se pense em "Endless Music" como "música infinita", conforme o próprio explicou em 1988: essa é uma expressão que vai mais de encontro a um religioso nirvana do que outra coisa, inspirado pelo seu apreço pela música de Bali (não se podia ser vanguardista nos anos 60/70/80 sem se gostar de "música de Bali", que é o equivalente pretensioso do mui palonço "não podes gostar de hip-hop tuga sem gostares de Sam The Kid").

A música é sobretudo repetitiva, algo que Albrecht, antes de falecer, explicou fazer «parte da base da improvisação» (isto se o Google Translate estiver correcto). Dividido em seis peças, "Endless Music", na sua versão de 1974, soa a um encontro fortuito entre um homem das obras e um monge tibetano, o ritmo hipnótico a ceder terreno a solos de uma corda só e a ocasionais delírios vocais (feminino e operático e feminino e gritaria). E se essa descrição parecer absolutamente horrenda, é só falha do seu intérprete: "Endless Music" é na verdade bastante interessante e uma inclusão digna na lista de discos de todos os que gostam de música estranha.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Iggy Pop - Every Loser (2023)

 


Iggy Pop sempre foi um falhado. Foi-o quando morava com a família num trailer park - falhado porque pobre. Foi-o quando fez parte da equipa de debate do liceu que frequentava - falhado porque totó. Foi-o quando descobriu o rock n' roll - música para falhados e refuseniks. Foi-o quando as drogas passaram a fazer parte indelével da sua vida - falhado porque janado. E é falhado agora porque está velho e não mais irá fazer crowdsurf na vida - bom, isso está por descobrir. Porque Iggy Pop é um falhado, mas é o nosso falhado, e normalmente quando diz uma coisa não o devemos levar muito a sério. Devemos, isso sim, partir com ele rumo à qualquer coisa que ele quer que descubramos, como um miúdo que diz a outro que viu um gato morto na berma da estrada.

Claro que, ao longo dos últimos quase cinquenta anos, praí desde o lançamento de "The Idiot" / "Lust For Life" / "Kill City", essa qualquer coisa não tem sido minimamente fascinante, salvo colaborações muito honrosas ou projetos que retiram os fãs de Iggy Pop (mas não o próprio, importante ressalvar) da sua área de conforto, como "Leaves Of Grass", que o juntou a Alva Noto e Tarwater para uma homenagem ao grande Walt Whitman. O fascínio de Iggy Pop reside, desde 1977, nas suas performances ao vivo: o tronco nu, a gritaria, a porrada. A ideia de que nós, falhados do mundo, somos um exército poderoso quando nos unimos.

"Every Loser" não é fascinante, à semelhança de praticamente todos os álbuns de Iggy Pop lançados após essa trilogia. Mas parece ter sido gravado de forma a resultar ao vivo, como se nota em 'All The Way Down', o som cheio a pedir umas colunas brutais - Iggy sabe que é ao vivo que Iggy resulta e é ao vivo que os fãs o querem. Pelo meio, vários atos falhados: 'Strung Out Johnny', uma drogaria que podia ter sido escrita em 1995, 'New Atlantis', radiofónica e chata, e 'Comments', uma tentativa algo patética de tentar soar à fase Bowie. 'Frenzy' ainda anima, assim como 'Modern Day Ripoff', e a crítica muito pouco escondida a escumalhas modernas tipo Machine Gun Kelly, em 'Neo Punk', faz sorrir. 

Para alguém que disse que este álbum tinha como objectivo encher o ouvinte de porrada, "Every Loser" nem sequer faz cócegas (e está tudo dito quando é um interlúdio, 'The News For Andy', poesia misturada com swing nocturno, a faixa mais interessante do disco). Porém, atente-se nos versos finais de 'The Regency', uma espécie de autobiografia com a batida da 'Be My Baby': I battled with the regency / I fought them to a draw / While I'm alive, uncompromised / I'm stepping out the door. Será esta a despedida do Rei dos Falhados? Espero, apesar de tudo, que não - não faria nada bem ao coração uma despedida tão precoce (sim, precoce) do único músico que, quando morrer, me fará chorar.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Airway - Live At LACE (1978)

 

Não sei o que é que me fascina no barulho - talvez o facto de viver com ele constantemente, todas as horas e dias e semanas lidando com os pneus dos carros que passam pela Nacional 10, com o ratatatata das obras em ruas e prédios e parques, com o drone semi-longínquo dos aviões que passam (menos longínquo quando se lembram de aterrar para reparações), com o mmmmmm constante do portátil, com os gritos e gritinhos dos miúdos a jogar à bola na praceta - talvez o facto de estar tão dessensibilizado que o barulho, formado por uns ou por outros sons, me é familiar e tem o mesmo efeito calmante de um abraço amigo. E então, em alturas mais stressantes, amplifico-o, sobretudo na sua forma japonesa, e deixo que mate um bocadinho mais o ego e lave terapeuticamente os meus pecados.

Porque é mais punk, porque é exótico, sei lá: hoje fala-se de barulho (ou noise, para dar aquele elã) e é impossível não mencionar Merzbow, Hanatarash, Masonna e todos os demais loucos que deram ao país do Sol Nascente uma aura ainda mais bizarra que a que tinham já, com todos aqueles robôs gigantes e máquinas de venda automática e katanas e já as CocoRosie diziam everybody wants to go to Japan. Pensa-se é menos no que terá influenciado esta gente toda. A resposta: a Los Angeles Free Music Society, colectivo formado nos anos 70 por gente que achava o rock n' roll mainstream aborrecido, preferindo sobretudo o ethos do género: posicionar-se nas margens e fazer barulho.

Os Airway foram apenas um dos seus braços, projeto de Joe Potts com a ajuda de várias figuras dentro do colectivo, um braço que acabaria por formar o corpo inteiro de bandas como os Hijokaidan (todas estas referências é para irem procurar no YouTube, amigões. Sejam livres). Ao longo de uma vida que não o chegou a ser - porque este tipo de projectos é para fazer uma vez e partir para outra -, os Airway tiveram apenas uma rodela de vinil com o seu nome, registo de uma performance no Los Angeles Contemporary Exhibitions, espaço dedicado às artes visuais. Não havendo vídeo acoplado ao disco, não dá para perceber se a ideia de Potts de um assalto subliminar aos sentidos (15 anos antes da "Zoo TV" dos U2 tentar um assalto total) foi bem concretizada, nem há muita gente a quem o possamos perguntar. Mas podemos chamar-lhe barulho, porque é assim que Rick Potts, o seu irmão, descreve a sonoridade dos demais projetos da Los Angeles Free Music Society.

Que tipo de barulho? Do bom, claro, e que arranca com uma bateria primitiva, antes de dar a vez - naquilo que é a qualidade menos caótica do disco, já que indica ordem - ao saxofone free jazz e à guitarra eléctrica, num ritmo constante e que acelera ali por volta dos oito minutos. Até que no lado B surge a voz, alienígena e incompreensível (compararam-na por aí ao que o Brian Chippendale faz nos Lightning Bolt e é uma comparação que faz algum sentido), para tudo terminar 28 minutos depois com o tribalismo catártico que se espera de uma sessão de ruído. Claro que não é tão abrasivo como algumas das coisas eletrónicas que veio a influenciar, e que mereceriam um 9 ou um 10 numa improvisada escala de Richter para o barulho, mas é fixe para irritar os vizinhos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Pekka Airaksinen - Buddhas Of Golden Light (1984)

 


O que acontece quando um homem abandona os ácidos e a pornografia e descobre uma razão para a sua existência no budismo? Acontece Pekka Airaksinen, músico do qual se diz ter sido uma das figuras mais importantes do underground finlandês dos anos 70, depois de ter fundado os Sperm, projeto de vanguarda que aliava a música às artes performáticas. O fim desse grupo foi, para si, também o fim do desejo. Começou a colecionar arte tibetana, abriu um museu, e esteve vários anos sem lançar música nova, até chegar a "Buddhas Of Golden Light", o seu segundo álbum a solo, depois da estreia com "One Point Music" (1972).

"Buddhas Of Golden Light" foi o primeiro tomo de um projeto pessoal de Airaksinen, que queria lançar um disco por cada um dos avatares budistas (morreu em 2019, algo longe do número 1000 mencionado nos textos sagrados, mas com pouco mais de 100 edições no currículo). Para trás pode ter ficado a loucura dos Sperm, mas não a excentricidade. Quase 40 anos depois, "Buddhas Of Golden Light" é um daqueles álbuns impossíveis de descrever, sequer mesmo de comparar, e boa parte dos motivos para tal está na forma como foi construído, com recurso a uma TR-808, os ritmos da máquina a aliarem-se ao free jazz

«Fazer arte deve ter que ver com a loucura», disse à "The Wire" em 2018, e a sua afirmação faz cada vez mais sentido quando nos deparamos com os pulsares cósmicos de 'Sukirti', como se a banda-sonora de "Ren & Stimpy" tivesse mais que ver com a javardice decadente (elogio) dos desenhos animados que com o bebop do tema de abertura. Mas talvez não seja loucura, e sim matemática, que em Lautreámont era semelhante ao divino. «Inventei um sistema onde converti estes nomes [dos avatares] em informação matemática, e posteriormente em equivalentes musicais, que utilizei nas composições», explicou. Ou seja, o que escutamos em "Buddhas Of Golden Light" não é o caos, mas um nome, uma identidade, e que o é sagrada.

Claro que só quem tem fé pensará nisso dessa forma. Os que a não têm, ou que nas questões do eterno se posicionam no campo do seu inverso, escutarão 'Suvarnasatarasmibhasagarbha' e, depois de três aftas, quatro tosses e uma dose considerável de baba a tentar pronunciá-la, pensarão nele como um tema onde uma espécie de theremin (na verdade, um sintetizador) solene abre caminho para o funk de 'Ratnasikhin' - que mais se assemelha a uma criança a brincar com os presets de um teclado da Casio, até entrar um saxofone que nos recorda de que este é um álbum deste planeta, apesar de tudo. A fechar, os teclados proeminentes de 'Kandrasuryapradipa' voltam a trazer ao de cima o espírito de Sun Ra, Buda também ele, à sua maneira. Meditemos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Manuel Göttsching - E2-E4 (1984)

 


A quinze minutos do final do concerto, o plano era simples: iria levantar-me da cadeira, resolver a enorme vontade de mijar que tinha, e voltar à sala. Porém, o zeloso funcionário do TAGV arruinou-mo à partida, indicando-me que não poderia regressar ao meu lugar, nem mesmo estando em trabalho. Dado que quem bebe muita cerveja raramente consegue aguentar muito tempo, tive que me resignar e perder o que faltava de “E2-E4”, a obra-prima de Manuel Göttsching, que o próprio apresentou nessa noite coimbrã. E conto isto não por ainda guardar rancor em relação ao funcionário em questão (porque o guardo, porque quem não sente empatia pelas necessidades fisiológicas alheias merece todo o mau karma que lhe caia em cima), mas porque a morte de Göttsching me fez perceber que, agora, já não terei qualquer oportunidade de o aplaudir.

Não o fiz durante o espetáculo porque “E2-E4” não é uma obra que se deva cortar com outro tipo de sons. Também não é uma obra fácil de explicar a quem nunca a escutou, para além do óbvio. Peça única de quase uma hora onde é sobretudo a repetição o que nos atrai, tanto rítmica como melódica, pelo menos até se chegar a 'Ansatz' e entrar aquela deliciosa guitarra mediterrânea – a mesma que terá inspirado 'Sueño Latino' a transportar a mecânica alemã para as praias da costa sul europeia. Sol e mojito na mão a acompanhar o balanço. Trance antes de lhe darem um nome. Bíblia para o techno minimal. Roque psicadélico puro (fiquei tão orgulhoso com esta piada de xadrez, na reportagem desse concerto em Coimbra, que sinto que a tenho que replicar).

Quando lançou “E2-E4”, Manuel Göttsching era já uma figura conhecida do rock alemão, pelo seu trabalho nos Ash Ra Tempel, que mais tarde se tornariam nos Ashra, moniker de um projeto a solo que contaria com alguns convidados. Nascido em Berlim, em 1952, o seu percurso foi semelhante ao de muitos dos seus comparsas: primeiro a música clássica, depois o rock n' roll e o som da Motown, e finalmente as composições eletrónicas e improvisadas que à altura faziam o underground do underground. O abandono (não total) da guitarra elétrica deu-se precisamente nos anos 80, quando os sintetizadores e os sequenciadores permitiram a Göttsching encarnar, de forma completamente distinta, o ethos do krautrock – repetição, repetição, repetição, até que o ego se dissolva na música.

Gravado em 1981, “E2-E4” acabaria por ser editado apenas em 1984, depois de o músico o ter oferecido à Virgin – “sem grande vontade”, como é escrito em “Future Days”, de David Stubbs – e acabando por escolher a Inteam, do amigo Klaus Schulze, figura que nos Tangerine Dream se apaixonou por sintetizadores antes de toda a gente. O impacto nas pistas de dança foi imediato, com o disco a encontrar um público fiel no lendário Paradise Garage, em Nova Iorque. Se os Kraftwerk foram os pais do techno, com “E2-E4” Göttsching tornou-se, como escreveu o Guardian, no seu padrinho. «Não conseguia imaginar as pessoas a dançar ao som dele», admitiu então.

Nada mau para uma peça que «não fazia questão de gravar, em formato álbum», e que nasceu de uma sessão de improviso em estúdio como tantas outras. «Não alterei nada. Não fiz overdubs. Não editei. Deixei-a como estava. Fiquei espantado quando a terminei e pensei: 'O que foi isto?'», contou numa conferência da Red Bull Music Academy. É algo que também costuma passar pela cabeça de quem o ouve, melhor ainda se forem virgens em relação à obra: 'o que foi isto?'. É capaz de ser felicidade, irmão. Agora ouve-o outra vez. Mas esvazia a bexiga antes.


Damo Suzuki (1950-2024)

  Ain't got no time for western medicine / I am Damo Suzuki , cantava Mark E. Smith na bonita homenagem que os seus The Fall fizeram ao...