A quinze minutos do final do concerto, o plano era simples: iria levantar-me da cadeira, resolver a enorme vontade de mijar que tinha, e voltar à sala. Porém, o zeloso funcionário do TAGV arruinou-mo à partida, indicando-me que não poderia regressar ao meu lugar, nem mesmo estando em trabalho. Dado que quem bebe muita cerveja raramente consegue aguentar muito tempo, tive que me resignar e perder o que faltava de “E2-E4”, a obra-prima de Manuel Göttsching, que o próprio apresentou nessa noite coimbrã. E conto isto não por ainda guardar rancor em relação ao funcionário em questão (porque o guardo, porque quem não sente empatia pelas necessidades fisiológicas alheias merece todo o mau karma que lhe caia em cima), mas porque a morte de Göttsching me fez perceber que, agora, já não terei qualquer oportunidade de o aplaudir.
Não o fiz durante o espetáculo porque “E2-E4” não é uma obra que se deva cortar com outro tipo de sons. Também não é uma obra fácil de explicar a quem nunca a escutou, para além do óbvio. Peça única de quase uma hora onde é sobretudo a repetição o que nos atrai, tanto rítmica como melódica, pelo menos até se chegar a 'Ansatz' e entrar aquela deliciosa guitarra mediterrânea – a mesma que terá inspirado 'Sueño Latino' a transportar a mecânica alemã para as praias da costa sul europeia. Sol e mojito na mão a acompanhar o balanço. Trance antes de lhe darem um nome. Bíblia para o techno minimal. Roque psicadélico puro (fiquei tão orgulhoso com esta piada de xadrez, na reportagem desse concerto em Coimbra, que sinto que a tenho que replicar).
Quando lançou “E2-E4”, Manuel Göttsching era já uma figura conhecida do rock alemão, pelo seu trabalho nos Ash Ra Tempel, que mais tarde se tornariam nos Ashra, moniker de um projeto a solo que contaria com alguns convidados. Nascido em Berlim, em 1952, o seu percurso foi semelhante ao de muitos dos seus comparsas: primeiro a música clássica, depois o rock n' roll e o som da Motown, e finalmente as composições eletrónicas e improvisadas que à altura faziam o underground do underground. O abandono (não total) da guitarra elétrica deu-se precisamente nos anos 80, quando os sintetizadores e os sequenciadores permitiram a Göttsching encarnar, de forma completamente distinta, o ethos do krautrock – repetição, repetição, repetição, até que o ego se dissolva na música.
Gravado em 1981, “E2-E4” acabaria por ser editado apenas em 1984, depois de o músico o ter oferecido à Virgin – “sem grande vontade”, como é escrito em “Future Days”, de David Stubbs – e acabando por escolher a Inteam, do amigo Klaus Schulze, figura que nos Tangerine Dream se apaixonou por sintetizadores antes de toda a gente. O impacto nas pistas de dança foi imediato, com o disco a encontrar um público fiel no lendário Paradise Garage, em Nova Iorque. Se os Kraftwerk foram os pais do techno, com “E2-E4” Göttsching tornou-se, como escreveu o Guardian, no seu padrinho. «Não conseguia imaginar as pessoas a dançar ao som dele», admitiu então.
Nada mau para uma peça que «não fazia questão de gravar, em formato álbum», e que nasceu de uma sessão de improviso em estúdio como tantas outras. «Não alterei nada. Não fiz overdubs. Não editei. Deixei-a como estava. Fiquei espantado quando a terminei e pensei: 'O que foi isto?'», contou numa conferência da Red Bull Music Academy. É algo que também costuma passar pela cabeça de quem o ouve, melhor ainda se forem virgens em relação à obra: 'o que foi isto?'. É capaz de ser felicidade, irmão. Agora ouve-o outra vez. Mas esvazia a bexiga antes.

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