domingo, 11 de dezembro de 2022

Agitation Free - Malesch (1972)

 


A culpa é do maio de 1968. Depois de os estudantes terem erguido barricadas, o Goethe-Institut decidiu pegar na agitação social e política da época e na então emergente arte de vanguarda, enfiando tudo dentro de uma caixa, lacinho em cima, para as levar pelo mundo fora como forma de vender uma Alemanha que, àquela altura, era ainda apenas Ocidental. Foi assim que os Agitation Free, formados em 1967 sob o nome Agitation (que tiveram de alterar porque alguém havia lá chegado primeiro), puderam viajar pelo Líbano, Egipto, Grécia e Chipre, munidos de instrumentos e com a cabeça a andar à roda por causa das drogas ou do rock psicadélico que escutavam. Na maior parte das vezes, com a cabeça a andar à roda por causa das duas coisas ao mesmo tempo.

Dessas viagens com o alto patrocínio do governo alemão os Agitation Free trouxeram "Malesch", o seu disco de estreia, inserido nessa categoria que os ingleses - sempre predispostos a uma boa boca xenófoba - apelidaram de krautrock, um epíteto que os demais melómanos adoptaram, até porque os alemães, depois de alguma rejeição inicial, deixaram de se preocupar assim tanto com a coisa (e não é como se tivessem moral para criticar, não é?). Porém, se formos fazer uma lista de álbuns seminais do primeiro período krautrock, o mais certo é que "Malesch" não se encontre por lá. A culpa é de Julian Cope, que não o incluiu no seu igualmente seminal "Krautrocksampler". Mas também é culpa dos próprios Agitation Free: bons, sim, mas não revolucionários, como o foram comparsas como os Can ou os Neu!.

Não que os seus membros não tenham feito grandes coisas ao longo das suas carreiras. O guitarrista Lutz Ulbrich, por exemplo, "Lüül" para os amigos, acabou a trabalhar com os Ashra (do genial Manuel Göttsching) e com Nico (não menos genial), e Christopher Franke, o baterista original do grupo, que nem sequer participou das sessões de "Malesch", esteve largos anos nos Tangerine Dream. Mesmo à altura os Agitation Free não eram tão desconhecidos quanto isso, no sentido lato da palavra desconhecido: eram a banda residente da discoteca Zodiac, a primeira em Berlim Ocidental dedicada ao underground, e acabaram a receber uma avença de um conservatório local, o que lhes permitiu acesso a um estúdio (que a mãe de Franke fosse professora de violino também ajudou). Conforme contam os próprios no seu website oficial, uma das suas primeiras performances atraiu cerca de 1500 pessoas, terminando num maravilhoso motim - o género de coisas que os estudantes faziam quando se sentiam insultados, e quando não queriam pensar na pergunta onde é que o teu pai estava em 1945?.

A música, sobretudo improvisada ao início, ganhou com as influências que vinham do estrangeiro, os Pink Floyd à cabeça. Outrora tão free como o nome do grupo, ganhou estrutura e coesão, mas não tanta que a tornasse cafona. Olhe-se para "Malesch", onde esses momentos de improvisação são beneficiados pela repetição (a motorika de 'Ala Tul' ou o tema-título), por riffs pesados cortesia dos Iron Butterfly (no final do pulsar cósmico de 'Sahara City'), pelos samples que acrescentam aqui e ali (como no início de 'You Play For Us Today', onde a voz que se escuta é a do piloto que os transportou para o Chipre). Aliás, poder-se-á dizer que a filosofia dos Agitation Free está contida no nome do álbum: "Malesch", em árabe (معليش), significa qualquer coisa como 'tá tudo, tranquilo. Não é preciso chatearmo-nos por isto não ser tão improvisado ou tão estruturado, o que sair daqui será bom.

Por outro lado, talvez seja essa indiferença drogada o que faz com que "Malesch" não tenha tido o mesmo impacto que os discos de alguns dos seus pares. Não que isso importe muito: meio século depois, "Malesch" ainda aqui está à nossa disposição, a narrar a viagem que um grupo de heads alemães fez pelo então tão misterioso Oriente Mediterrânico, com um enorme bónus no regresso: já com o disco gravado (que acabaria por sair em dezembro de 1972), os Agitation Free foram escolhidos para atuar numa série de eventos ligados aos Jogos Olímpicos de Munique, a sua última grande hipótese de atingir a fama. O álcool e as drogas acabariam a levar o grupo para péssimos caminhos, fechando-se o ciclo com mais dois álbuns, "2nd" (em 1973) e "Last" (registo ao vivo de 1974, lançado em 1976). Desde então, já se reuniram por diversas vezes, a última das quais em 2013. Se isso de traduzirá em mais incursões futuras pelo mundo, ninguém sabe. Mas, olhem, malesch.

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