Iggy Pop sempre foi um falhado. Foi-o quando morava com a família num trailer park - falhado porque pobre. Foi-o quando fez parte da equipa de debate do liceu que frequentava - falhado porque totó. Foi-o quando descobriu o rock n' roll - música para falhados e refuseniks. Foi-o quando as drogas passaram a fazer parte indelével da sua vida - falhado porque janado. E é falhado agora porque está velho e não mais irá fazer crowdsurf na vida - bom, isso está por descobrir. Porque Iggy Pop é um falhado, mas é o nosso falhado, e normalmente quando diz uma coisa não o devemos levar muito a sério. Devemos, isso sim, partir com ele rumo à qualquer coisa que ele quer que descubramos, como um miúdo que diz a outro que viu um gato morto na berma da estrada.
Claro que, ao longo dos últimos quase cinquenta anos, praí desde o lançamento de "The Idiot" / "Lust For Life" / "Kill City", essa qualquer coisa não tem sido minimamente fascinante, salvo colaborações muito honrosas ou projetos que retiram os fãs de Iggy Pop (mas não o próprio, importante ressalvar) da sua área de conforto, como "Leaves Of Grass", que o juntou a Alva Noto e Tarwater para uma homenagem ao grande Walt Whitman. O fascínio de Iggy Pop reside, desde 1977, nas suas performances ao vivo: o tronco nu, a gritaria, a porrada. A ideia de que nós, falhados do mundo, somos um exército poderoso quando nos unimos.
"Every Loser" não é fascinante, à semelhança de praticamente todos os álbuns de Iggy Pop lançados após essa trilogia. Mas parece ter sido gravado de forma a resultar ao vivo, como se nota em 'All The Way Down', o som cheio a pedir umas colunas brutais - Iggy sabe que é ao vivo que Iggy resulta e é ao vivo que os fãs o querem. Pelo meio, vários atos falhados: 'Strung Out Johnny', uma drogaria que podia ter sido escrita em 1995, 'New Atlantis', radiofónica e chata, e 'Comments', uma tentativa algo patética de tentar soar à fase Bowie. 'Frenzy' ainda anima, assim como 'Modern Day Ripoff', e a crítica muito pouco escondida a escumalhas modernas tipo Machine Gun Kelly, em 'Neo Punk', faz sorrir.
Para alguém que disse que este álbum tinha como objectivo encher o ouvinte de porrada, "Every Loser" nem sequer faz cócegas (e está tudo dito quando é um interlúdio, 'The News For Andy', poesia misturada com swing nocturno, a faixa mais interessante do disco). Porém, atente-se nos versos finais de 'The Regency', uma espécie de autobiografia com a batida da 'Be My Baby': I battled with the regency / I fought them to a draw / While I'm alive, uncompromised / I'm stepping out the door. Será esta a despedida do Rei dos Falhados? Espero, apesar de tudo, que não - não faria nada bem ao coração uma despedida tão precoce (sim, precoce) do único músico que, quando morrer, me fará chorar.

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