O que acontece quando um homem abandona os ácidos e a pornografia e descobre uma razão para a sua existência no budismo? Acontece Pekka Airaksinen, músico do qual se diz ter sido uma das figuras mais importantes do underground finlandês dos anos 70, depois de ter fundado os Sperm, projeto de vanguarda que aliava a música às artes performáticas. O fim desse grupo foi, para si, também o fim do desejo. Começou a colecionar arte tibetana, abriu um museu, e esteve vários anos sem lançar música nova, até chegar a "Buddhas Of Golden Light", o seu segundo álbum a solo, depois da estreia com "One Point Music" (1972).
"Buddhas Of Golden Light" foi o primeiro tomo de um projeto pessoal de Airaksinen, que queria lançar um disco por cada um dos avatares budistas (morreu em 2019, algo longe do número 1000 mencionado nos textos sagrados, mas com pouco mais de 100 edições no currículo). Para trás pode ter ficado a loucura dos Sperm, mas não a excentricidade. Quase 40 anos depois, "Buddhas Of Golden Light" é um daqueles álbuns impossíveis de descrever, sequer mesmo de comparar, e boa parte dos motivos para tal está na forma como foi construído, com recurso a uma TR-808, os ritmos da máquina a aliarem-se ao free jazz.
«Fazer arte deve ter que ver com a loucura», disse à "The Wire" em 2018, e a sua afirmação faz cada vez mais sentido quando nos deparamos com os pulsares cósmicos de 'Sukirti', como se a banda-sonora de "Ren & Stimpy" tivesse mais que ver com a javardice decadente (elogio) dos desenhos animados que com o bebop do tema de abertura. Mas talvez não seja loucura, e sim matemática, que em Lautreámont era semelhante ao divino. «Inventei um sistema onde converti estes nomes [dos avatares] em informação matemática, e posteriormente em equivalentes musicais, que utilizei nas composições», explicou. Ou seja, o que escutamos em "Buddhas Of Golden Light" não é o caos, mas um nome, uma identidade, e que o é sagrada.
Claro que só quem tem fé pensará nisso dessa forma. Os que a não têm, ou que nas questões do eterno se posicionam no campo do seu inverso, escutarão 'Suvarnasatarasmibhasagarbha' e, depois de três aftas, quatro tosses e uma dose considerável de baba a tentar pronunciá-la, pensarão nele como um tema onde uma espécie de theremin (na verdade, um sintetizador) solene abre caminho para o funk de 'Ratnasikhin' - que mais se assemelha a uma criança a brincar com os presets de um teclado da Casio, até entrar um saxofone que nos recorda de que este é um álbum deste planeta, apesar de tudo. A fechar, os teclados proeminentes de 'Kandrasuryapradipa' voltam a trazer ao de cima o espírito de Sun Ra, Buda também ele, à sua maneira. Meditemos.

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